Fornecedores gráficos – Greenwashing


Semanalmente recebo diversos mostruários de fornecedores gráficos querendo fazer trabalhos aqui para a empresa. A maioria manda um envelope comum (offset ou couchet) e alguns trabalhos como exemplo e uma cartinha de apresentação e a listagem das máquinas e serviços.

Impresso antes de abrir.

Ontem chegou em minhas mãos, o material de uma gráfica – que até então prefiro não citar o nome – vendendo a idéia de ser uma empresa reciclável e ecológicamente responsável. A primeira vista tudo OK: formato fechado 20 x 20 cm impresso em policromia (4×4 – CMYK),  conceito “eco” todo pensado (uma mão segurando um montinho de terra com uma árvore nascendo), selo de reciclado no verso, material fechado nas dobras, sem uso de cola quente. No interior a tal cartinha de apresentação com 19 x 19 cm, um postal de 14 x 9 cm e uma tabela de aproveitamento de papel com as folhas 89 x 117 cm, 76 x 112 cm, 66 x 96 cm e 64 x 88 cm. Hum…., pensei eu!

De primeira não percebi as reais intenções do material.

Abri todo material, espalhei na mesa e mais uma vez vi a grande jogada que começou a pintar ultimamente: todo mundo quer ser verde! Os fornecedores começaram a perceber a demanda pelo ecodesign, a impressão limpa, o sustentável, e como o tilintar das moedas começou a ecoar mais alto, todo mundo quer por o seu pézinho em Gaia.

O kit completo: pasta, posta, carta de apresentação e tabela de corte.

Analisando o material: plastificação e textura reciclada

O kit promocional bate de frente com a proposta de vender a gráfica como uma opção ecológica e o fuzilamento do próprio pé continuou com a análise do kit.

Todos os impressos estavam plastificados e impressos em 4×4 (CMYK), a salvo a tabela de aproveitamento de papel, que impressa em papel off-set, 2 cores e 1 dobra, era a mais pertinente. Ainda assim poderia ser impressa em uma cor, o que não diminuiria em nada o projeto.

A carta de apresentação, em “papel reciclato”, tinha um detalhe curioso: a logo da empresa apresentava uma grande área branca. Adesivo? Um calço com tinta branca? Não! Ela estava lá branquinha, limpinha como um digno couché texturizado com reciclado. A malandragem usada muitas vezes em anúncios e impressos em geral, dava as caras novamente. A não ser que já tenham lançado um papel reciclado com um lado “sujo” e o outro branco, fica difícil acreditar!

Detalhe do "papel reciclado" branco.

O postal que repetia as informações da carta poderia ter sido eliminado do kit. O verso, com uma foto de um bucólico bosque de árvores nativas, ajudava na queimada de filme com os seguintes dizeres: “100% do papel utilizado pela XXX Gráfica é reciclado ou provém de floresta plantada”. Não acredito que estejam usando o papel Silprint e até onde sei todas as árvores são plantadas. Escreveu, não leu, o pau comeu!

O último material analisado foi a embalagem de envio. As soluções mais usuais para oferecer maior proteção e durabilidade aos impressos é laminação, plastificação ou o uso de sacos plásticos. Nesse caso optou-se pela plastificação e o aumento da gramatura e ao menos não houve o uso de sacos plásticos. Já o fechamento da peça foi feito com um selinho adesivo plastificado e impresso em policromia pareceu ser uma opção rápida. Vale lembrar que há muitas opções de fechamento sem o uso de colas, utilizando dobras e encaixes.

Greewashing?

Greenwashing funciona mais ou menos assim: o sujeito vai lá, planta uma árvore, cortar dez e divulga que ajuda o meio ambiente porque plantou uma, omitindo o corte das dez. Trata-se do uso de idéias ambientais para construção de uma imagem pública positiva de “amigo do meio ambiente”, não é condizente com a real gestão, negativa e causadora de degradação ambiental.”

Na Wikipédia, “Greenwashing (traduzido geralmente como “branqueamento ecológico”) é um termo utilizado para designar um procedimento de marketing utilizado por uma organização (empresa, governo, etc) com o objectivo de dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Neste caso, a organização tem, porém, uma actuação contrária aos interesses e bens ambientais“.

Um post bem interessante sobre greenwashing no blog Faça a sua parte fala de maneira abrangente sobre a prática e cita vários links legais. Outro post que curti foi o “Nem tão responsáveis assim” no blog ComCiência, onde é citada a dissertação de mestrado da bióloga Ana Flávia Ferro, demosntrando que algumas empresas brasileiras têm adotado essa prática como um diferencial que gera vantagens competitivas.

Um outro lado da moeda é o greenhushing onde as empresas, com medo de serem taxadas de marketeiras, não publicam suas ações ambientais, o que pode acabar sendo tão danoso quanto a mentira verde. Para quem sabe inglês, segue o link para o post sobre greehushing no TreeHugger.

Para finalizar fica a pergunta: você acha que deveria postar as imagens do kit da gráfica sem omitir a logo deles?

PENSE: Invés de grampear folhas dos layouts, utilize clipes que podem ser reutilizáveis.

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7 responses to this post.

  1. Posted by korovamilkbar655 on 08/12/2009 at 19:00

    Nossa! Essa gráfica, realmente, tem um péssimo serviço de planejamento e marketing. Tá parecendo até empresa de petróleo que se diz ecologicamente correta, mas é cheia de funcionários que imprimem centenas de folhas por dia, apenas para rasgar 5 minutos depois.

    Responder

  2. Um site bacana sobre os pecados do greenwashing é o http://sinsofgreenwashing.org/

    Curti o monstrinho verde heheheheheheh

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  3. Posted by Davi Leon Dias on 12/01/2010 at 22:34

    No momento que estamos utilizando o papel como matéria prima para a produção gráfica, seja ela reciclável ou não, já estamos contribuindo para a agressão ambiental. Infelizmente a revolução industrial não pensou nesse detalhe e hoje é praticamente impossível sair de tal realidade. Agora não devemos ser hipócritas de dizer que o tiozinho da empresa X utiliza material “ecologicamente certa” sendo que está usando produtos “ecologicamente errada”, e crucifica-lo. TODOS, sem esseção, de uma forma ou de outra, estão aferrando o meio ambiente. Repito: TODOS, SEM ESSEÇAO. No entanto devemos buscar uma nova solução para minimizar os efeitos destrutivos que a revolução industrial nos apresentou (enfiou guéla baixo). Problemas todo mundo encontra, solução não.

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  4. Posted by Bruno Moura on 05/06/2010 at 19:30

    Acho muito importante esses assuntos aqui colocados, por que muitas empresas se dizem ECOLOGICAS, até pode ser no impresso, mas e as questões de lixo de uma empresa o que eles fazem, eles fazem uma separação de materias antes de serem jogados no lixo, não adianta “tentar” ser ecologico no seu material impresso e no resto não dar a minima? outra coisa eu acho muito importante o nome da empresa sim acho uma coisa bacana, já que eles estão se passando por EMPRESA ECOLOGICA.

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  5. Posted by sandra k on 06/08/2010 at 00:10

    Uma análise superficial só considera as questões mais óbvias.

    Um recurso tosco que muitas gráficas sugerem para clientes é simular uma textura de reciclato (melhor dizendo reciclado pois, outro é marca registrada), imprimindo uma imagem de reciclado sobre qualquer papel branco comum. Dá para ver com o velho conta-fio os pontos da impressão, nem precisa checar a área de branco…

    É triste e soma-se à ignorância geral de que o processo de produção do tal “reciclato” parece ser bem mais poluente que o branco…e o mkt mal orientado leva muitos clientes a optar por esse recurso, acreditando estar agindo de forma ecologicamente correta.

    Sugiro pesquisar mais. A opção de papéis ecologicamente corretos em escala industrial no Brasil é incipiente.

    E optar por papéis “artesanais” é como comprar carne no açougue da esquina.
    Empresas de papeis artesanais não sofrem fiscalização, pois tem menor visibilidade e o controle sobre os processos de produção não existem. No final, podem ser bem mais poluidoras do que a indústria tradicional, que precisa se adequar às normas ambientais para poder sobreviver.

    É preciso ir além de somente denunciar o uso do papel branco e buscar alternativas economicamente viáveis para o Brasil, com custo competitivo e que tenham padrões de qualidade aceitáveis.

    Enquanto outras tecnologias não forem melhor utilizadas (dispensando por exemplo a impressão desnecessária de materiais de divulgação) haverá desperdício e as atitudes poluidoras permanecerão.

    Não dá para se iludir. O beneficiamento de papel, fabricação de tintas, uso e descarte de água, energia e materiais/lixo nos processos de fabricação e impressão com papel ainda estão muito longe de não serem agressivos ao meio ambiente.

    Cabe aos designers e criadores pensar em alternativas para difusão da informação não poluentes, educando os clientes para evitar desperdício e maior comprometimento dos nossos recursos naturais.

    Responder

  6. Posted by maria on 22/08/2011 at 17:46

    Este blog é ótimo. eu não sei se você pode mim ajuda estou desempregada ha mais de 1 ano preciso muito
    fazer alguma coisa para melhorar a situação aqui em casa.por isso faço um apelo preciso de material para
    começar a trabalhar ,encadernadora,guilhotina de mesa,plastificadora qualquer tipo de material na area de
    acabamento gráfico preciso de ajuda se vc pode mim ajuda o meu email para contato é esse
    docarmo.maria52@yahoo.com.br

    Responder

    • Maria,

      Fico feliz que tenha curtido o blog e espero que continuo acompanhando. É um trabalho de estudo que venho fazendo e aos poucos publicando aqui para quem curte a área.

      Infelizmente não poderei lhe ajudar pois não trabalho com máquinário e nem peças gráficas, somente com direção de arte e educação. Se souber de algo eu respondo aqui pelo post.

      Responder

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